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Mostrando postagens de abril, 2025

A Olho nu mas de roupa

minha mãe na fila, minha irmã ainda na escola. carros parados, com motores ligados de repente, o hermano chuta uma latinha e num primeiro gingado, tudo vira magia aqui não tem bola, nem campo, só a calçada torta e a vontade de inventar um mundo. no primeiro drible da vaca num gesto que nem eu sabia ter virei o savio, no gol, fui romário fui taffarel e até no auge da cavalice junior baiano ali invocamos os heróis do futebol: fomos todos eles. fomos nós mesmos. fomos tudo ao mesmo tempo. narradores do próprio lance e a torcida de nós mesmos. ao nosso redor pais impacientes a espera de seus filhos e a gente dando a alma por uma latinha   soou a campainha  e o jogo não acabou minha irmã chegou abandonei a latinha no último chute e fomos embora suados e felizes.

humilhado

um mosquito kamikaze, daqueles quase invisíveis, dá um rasante na minha perna. eu me sacudo ridiculamente, como uma criança fazendo manha ele passa por mim a mil, e eu dou um tapa no ar  em vão. decido ir atrás desse pentelho, mas ele desaparece. volto ao trabalho e esqueço dele completamente. mas, dois minutos depois, ele tira um fino da minha cabeça. eu bato no ar, tentando acertá-lo, enquanto ele cruza o escritório   chega! isso é inadmissível! falo sozinho, num tom de urgência. pego o par de chinelos e vou atrás dele. mas não o encontro. decido então aguardar. até que ele passa por mim, e eu, apressadamente, dou três chineladas seguidas. o barulho estalando de um chinelo batendo no outro só aumenta a vergonha alheia. estou sendo humilhado pelo mosquito. finalmente, ele pousa na quina do teto, como um morcego. se eu der um pulinho, eu alcanço.   a cena a seguir é patética: pego o chinelo, miro o movimento, dou um pulo e acerto ele em cheio. ele despenca, junt...

É aqui

é aqui que tudo acontece dentro do nada de quem já teve tudo numa concha no sofá é aqui que escapo onde tudo fica roxo sua cor favorita me transporta num delírio solitário chamado saudade é aqui, esculpindo a passagem do tempo numa escultura onde tudo se entorta no fim de um amor que não acaba

bate e volta

na mala de mão apenas o kit de sobrevivência: protetor de pescoço moletom, dipirona, carregador de celular, computador. valdir chegará em dois minutos, avisa o uber. por aqui ainda sem tênis, coloco a meia meio apressado no desenho da meia, o calcanhar ficou no tornozelo,  tiro a meia e recomeço e antes que eu pudesse amarrar os sapatos, o uber avisa: valdir chegou! verifico as janelas.  vai que chove e  quando eu voltar a casa vai estar toda molhada luz do quarto da juju acessa, apago janela escancarada, tropeço num lego por que ela ainda tem  lego? tranco a casa e por sorte o elevador estava a minha espera corro até o uber,  mas qual é mesmo a placa? qual é o carro mesmo? hb20 final E18 azul!  bom dia valdir! posso colocar essa malinha no banco da frente? bom dia luis, claro! entro com calma e já me desculpo pelo atraso. seguimos para a rodoviária ao som de roberto carlos,  "e que tudo mais vá para o inferno" falamos sobre a vida,  valdir é de j...