bate e volta

na mala de mão apenas o kit de sobrevivência:

protetor de pescoço moletom, dipirona, carregador de celular, computador.

valdir chegará em dois minutos, avisa o uber.

por aqui ainda sem tênis, coloco a meia meio apressado

no desenho da meia, o calcanhar ficou no tornozelo, 

tiro a meia e recomeço

e antes que eu pudesse amarrar os sapatos,

o uber avisa: valdir chegou!


verifico as janelas. 

vai que chove

e quando eu voltar a casa vai estar toda molhada

luz do quarto da juju acessa, apago

janela escancarada, tropeço num lego

por que ela ainda tem  lego?


tranco a casa e por sorte o elevador estava a minha espera

corro até o uber,  mas qual é mesmo a placa? qual é o carro mesmo?

hb20 final E18 azul!  bom dia valdir! posso colocar essa malinha no banco da frente?

bom dia luis, claro!

entro com calma e já me desculpo pelo atraso.


seguimos para a rodoviária ao som de roberto carlos, 

"e que tudo mais vá para o inferno"


falamos sobre a vida,  valdir é de joão pessoa

há quarenta anos atrás veio junto com quatro amigos tentar a vida em são paulo

logo acabou em santos para trabalhar na construção civil.

ele casou, teve filhos, separou e casou de novo.

se orgulha por ser o único dos amigos que ficou na cidade, 

todos voltaram para joão pessoa, mas ele me confessa que tem um desejo secreto de voltar daqui alguns anos.


chegamos na rodoviária

são paulo por favor! janela ou corredor?

janela!


sentado na minha poltrona

percebo que o ônibus vai pela anchieta

comemoro em silêncio na contramão do padrão!

todos preferem a emigrantes porque é mais rápida

eu particularmente, amo a anchieta!


a estrada é praticamente dentro da floresta

de um lado árvores, do outro também

vamos subindo a serra e a mata verde vai passando pela minha janela

todos os tipos de árvores, plantas vão passando

eu tento segurar com os olhos uma que gostei mas logo surgem outras e outras

o ônibus acelera, o verde vira vertigem, raios de diferentes tons

de repente surge um horizonte imenso

céu cresce em azul degradê, montanhas preenchidas com árvores

me emociono


no banco da frente, um senhor de cortina fechada no instagram

do outro lado, uma jovem dorme

ninguém muito contemplativo por aqui

e eu não quero perder uma árvore!


entramos num túnel

agora me  permito piscar, olhar o celular

nem pensei no livro

aí uma reflexão que esqueço

um túnel é uma montanha perfurada

para atravessarmos para o outro lado

entrar dentro da montanha poderia ser mais poético

do que um ambiente com luzes frias e uma acústica terrível


saímos do túnel e a beleza continua

essa estrada é praticamente uma artéria

no meio da mata atlântica

chega uma hora na serra que torço para o trânsito parar tudo

e num delírio imaginativo, eu abriria a janela

e contemplaria com calma aquela bela árvore que já passou


o bonito da anchieta é a sua imprevisibilidade

às vezes pegamos a estrada com o sol iluminando

outras vezes,  com uma neblina

carregada e fechada

mas tão linda a ponto de estar num filme melancólico


a pessoa do meu lado, abre um saquinho de papel

e tira de dentro uma esfiha de carne

o cheiro me contamina, tento me concentrar nas árvores

comer no ônibus deveria ser um crime previsto em lei

daí, percebo que estou ficando chato, velho e ranzinza!


a serra acabou! que pena!


tem uma outra coisa que me incomoda muito

o ônibus está entrando na rodoviária

e as pessoas começam a levantar afobadas

formando uma fila com o ônibus em movimento

é um desespero para sair vinte segundos antes de quem tá sentado

não faz sentido!


saio do ônibus tranquilo e mergulho no metrô do jabaquara:

pessoas de todos os tipos, como as árvores da serra.

cada uma delas andando no seu ritmo, e para todos os lados

de fato, é o primeiro choque urbano do dia

e é maravilhoso!


já dentro do vagão em pé  

tomo um primeiro susto 

com o tom de voz alto.

é um vendedor de descascador de batatas

sobe um cheiro de legumes mas não me incomoda

a demonstração é um show à parte, é muito melhor do que polishop

porque é ao vivo e de verdade!

o vendedor faz sucesso descascando cenouras, batatas 

cinco pessoas compram.


"próxima estação ana rosa, estação de integração com a linha verde

desembarque pelo lado direito"

é aqui que vou descer, só não me atentei a essa informação do desembarque pelo lado direito e quase que não saio do trem.


já na linha verde

consegui sentar

abro o livro

e de repente,

um vendedor de massageador

daqueles que gruda na pele e dá choquinho

como tenho dor na cervical e lombar

não resisti e comprei

vinte reais que valeram muito à pena!

a dor realmente passa 

mas confesso que ainda não me acostumei com os choquinhos


"próxima estação consolação"

não que seja uma consolação mas é aqui que eu desço

 sigo como uma formiga subterrânea, eu e centenas de pessoas.

como se anda por aqui, impressionante!

 já peguei esteiras rolantes, fui impactado com propagandas da tim, do novo filme da marvel,

subi cinco escadas rolantes e ainda não cheguei na superfície

esse metrô tem mais escadas rolantes do que um shopping, meu deus!


enfim, cheguei na paulista, outro choque!

mil carros por segundo nas pistas

prédios imensos, shopping

camelôs, restaurantes, é uma loucura!


duas quadras depois e já estou no prédio da minha reunião

a catraca é com reconhecimento facial

essas inovações tecnológicas completamente fora de propósito

obviamente, o reconhecimento facial não funciona

tiro os óculos, me afasto e nada!

não sou capaz de  convencer a máquina que eu sou eu

que loucura, devo ser um impostor de mim mesmo! será que sou eu mesmo?

fico meio atrapalhado ali na catraca até que

um segurança libera a minha entrada


a reunião foi um sucesso! agora é almoçar em algum lugar

e correr para a rodoviária para pegar a anchieta com luz








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