humilhado

um mosquito kamikaze,
daqueles quase invisíveis,
dá um rasante na minha perna.

eu me sacudo ridiculamente,
como uma criança fazendo manha


ele passa por mim a mil,

e eu dou um tapa no ar 

em vão.

decido ir atrás desse pentelho,
mas ele desaparece.


volto ao trabalho

e esqueço dele completamente.
mas, dois minutos depois,
ele tira um fino da minha cabeça.

eu bato no ar, tentando acertá-lo,
enquanto ele cruza o escritório
 


chega! isso é inadmissível!
falo sozinho,
num tom de urgência.

pego o par de chinelos
e vou atrás dele.
mas não o encontro.


decido então aguardar.
até que ele passa por mim,
e eu, apressadamente,
dou três chineladas seguidas.

o barulho estalando
de um chinelo batendo no outro
só aumenta a vergonha alheia.


estou sendo humilhado pelo mosquito.

finalmente, ele pousa na quina do teto,
como um morcego.

se eu der um pulinho, eu alcanço.
 

a cena a seguir
é patética:

pego o chinelo,
miro o movimento,
dou um pulo
e acerto ele em cheio.

ele despenca,
junto com meu short pijama
e minha bunda exposta.

é pura humilhação.


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