A Olho nu mas de roupa
minha mãe na fila,
minha irmã ainda na escola.
carros parados, com motores ligados
de repente, o hermano chuta uma latinha
e num primeiro gingado, tudo vira magia
aqui não tem bola,
nem campo,
só a calçada torta
e a vontade de inventar um mundo.
no primeiro drible da vaca
num gesto que nem eu sabia ter
virei o savio,
no gol, fui romário
fui taffarel e até no auge da cavalice
junior baiano
ali invocamos os heróis do futebol:
fomos todos eles.
fomos nós mesmos.
fomos tudo ao mesmo tempo.
narradores do próprio lance
e a torcida de nós mesmos.
ao nosso redor pais impacientes
a espera de seus filhos
e a gente dando a alma
por uma latinha
soou a campainha
e o jogo não acabou
minha irmã chegou
abandonei a latinha no último chute
e fomos embora suados e felizes.
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